quarta-feira, 28 de abril de 2010

Morte...

Na antiguidade clássica, o coração era considerado o órgão nobre essencial à vida, o primeiro a viver e o último a morrer, logo a vida e a morte andavam lado a lado no quotidiano. À medida que se avança pelas diversas etapas do ciclo vital, aproximamos-nos do incontornável destino que é a morte. A morte é uma realidade complexa em que confluem sentimentos, atitudes e reacções numa amálgama em que as representações de cada um são determinantes e em que, frequentemente, as emoções se sobrepõem à razão. Assim, a morte de um indivíduo é, para os seus significativos, o início de um doloroso e complicado processo de adaptação. Ontem, às 12 horas da manhã tenho a primeira experiência neste âmbito. Durante duas horas médicos e enfermeiros tentaram tudo por tudo prolongar a vida do Sr. A. A enfermaria deste homem parecia um "estendal de soros, adrenalinas, atropinas, dopaminas..." rodeado de "ene" máquinas. A cada minuto que passava o sentimento de impotência assoalhava a equipa. A dado instante, o ritmo cardíaco desacelera subitamente... até o monitor mostrar uma linha continua. Olhamo-nos... e um silencio de segundos transpareceu uma paz eterna. Todos sentiram que fizemos o melhor e tudo que podia por aquele senhor.

A comunicação deste tipo de noticia em saúde constitui um dos momentos mais difíceis nas relações interpessoais com a familia, causando grande desconforto tanto à pessoa que recebe como àquela que transmite a noticia. Os próprios profissionais podem manifestar dificuldades pessoais de adaptação ao processo de morrer incapacitando-os de atender doentes numa situação difícil de doença avançada. São vários os factores que podem interferir na reacção da família face à morte da pessoa, nomeadamente as relações existentes entre doente/família. É importante referir que os cuidados são complexos, exigentes e por vezes stressante, pois envolvem a gestão de aspectos emocionais do doente/família e do próprio enfermeiro. Ao falar da morte falamos da nossa morte, da morte do outro, da dor que é perder qualquer coisa que foi nossa e que deu significado à existência.

4 comentários:

  1. Também a ciência e a técnica sentem a limitação face à limitação da vida.
    Resta a consciência de que se foi ao ilimite para salvar o limite...
    Um navio afasta-se do porto. Saudade atinge o que o vêm partir até desaparecer no horizonte.
    Ao desaparecer, o navio não acaba, está mais perto do outro lado do mar onde nalgum porto, Alguém o espera para saudar a sua chegada.

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  2. Muito humano e pertinente o tema que propões à nossa reflexão. Obrigado e abraço

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  3. A morte é essa passagem, essa Páscoa, que tem tudo de inesperado, apesar de todos a esperamos desde que nascemos. Traz desgosto e sofrimento a quem fica, e certamente muita paz a quem vai. Mas quase sempre, quem fica, sente-a como profundamente injusta, fora de horas e de contexto. Acabo de viver algo assim, e apesar de todo o sofrimento, atrás dessa morte veio o reforço de uma amizade muito especial. Não foi uma substituição... mas pelo menos sempre foi alguma compensação.
    Para ti, meu caro voluntário, um grande bem haja por trazeres à partilha assuntos tão sérios...
    BromaFM

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  4. Infelizmente a morte é um assunto muito "duro". Ver alguém a morrer à nossa frente depois de termos dado o tudo por tudo para a salvar, acredito que custe muito...
    Sabes Pedro, quando cá venho ler o teu blog e vejo quando se fala nestes assuntos, assuntos que tocam na saúde pública, em que podemos ajudar os outros, digo muito sinceramente que me dá logo uma vontade súbita e a qual eu já pensei várias vezes, de seguir enfermagem...visto que me sinto rodeada por esse curso também... ;)

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